» Manifesto pela cozinha punk
Pela cozinha punk. Três acordes: arroz, feijão e bife.
Senhores mestres cucas, senhores(as) chéfs metidos(as), por favor, devolvam meu arroz com feijão, tenho pressa.
No máximo um bife por cima. Pela gastronomia punk, três acordes, na pressão.
Projeto Orígenes Lessa: o feijão e o sonho, ou contrário... Deu gorgulho na utopia mas o feijão ainda está são e salvo.
E aquele ovinho estrelado, quente, que nossas mães tão bem colocavam por cima de tudo, como um cobertor sobre as nossas pernas, hoje bem maiores e correndo abestalhadas.
Chega de molhos tantos, tomates verdes, secos, fritos.
Tantas invenções gastronômicas, novíssima fisiologia do gosto, argh, basta.
Chega de nouvelle cuisine, essa cozinha pós-tudo, esse fetiche da classe média por qualquer fraude.
Esses molhinhos, vôte! Qualquer canto que a gente chega, nego vem com nove-horas, até nos piores botecos já temos molhinho de manga sobre nosso pobre bife.
Devolvam o meu bife ileso.
É molhinho de tamarindo em cima do nosso sagrado cabrito ou carneiro. É molhinho agridoce, é uma tal de cozinha-fusion, vôte!!!
Temos até costela no bafo light!
Pela cozinha três acordes.
Pela cozinha faça você mesmo, em estados de larica ou em estado de invenções tantas.
Querem sofisticação? Pois apreciem a buchada de bode, que de tão nobre está mais para a alta costura, estilo Galliano, do que para a arte dos pratos. Nesse item do cardápio, a linha que tece o bucho, que por sua vez veste os miúdos, é pura classe.
Arroz.
Feijão.
Bife.
No máximo um ovo por cima.
A harmonia estrelada, materna ou da moça que ainda acredita nos dotes. Aceita tíquete?
Contra o restaurante por quilo, meu velho Câmara Cascudo!, essa praga acabou com o apetite besta e básico. Diante de tanta oferta, querido amigo Erasto, sou todo fastio, embora ainda goste daquilo, daquilo mesmo que tu gostas, sabes?!
Devolvam meu arroz com feijão, meus instintos primários, depois eu posso até comer aquele molhinho de tamarindo, aquele agridoce que a nega gosta, aquela fraude da coluna midiática, aquele pato cheio de bossa, aquela pizza verde, aquela pasta...
Pelo feijão com arroz, clássico, e batata frita ou macaxeira <mandioca, para os sudestinos), no máximo. Clássico como um jogo de domingo nas oiças do porteiro, vozinha fanhosa do rádio, gol, música ao longe, gol de letra.
Chega de molhinhos enganosos. Cozinha é feito mulher: ou molha por desejo ou aplica o orgasmo fingido em todos!
Pelo almoço de sábado e domingo em nossos lares, fugindo um pouco da enganação dos molhinhos ordinários, do afrancesamento falso dos pratos mais frugais, das fraudes que custam cifrões, das sogras que reclamam das nossas posses!
Ah, se eu vou na feira, compro de tudo, se eu cozinho, se eu cozinho, s´eu cozinho é meu!, ou é como se fosse.
Escrito por: Xico Sá é autor dos livros “Divina Comédia da Fama” (editora Objetiva) e “Modos de Macho & Modinhas de Fêmea” (editora Record)
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