» De uma tal de droga nova e a moral do capim novo
Gazelas insinuantes aproveitam as nuvens de testosterona que encobrem a noite dos bares e distribuem folhetos contra a “disfunção erétil” _pois é, nem mesmo a velha e humaníssima broxada escapou dos chatos politicamente corretos. Uma piadinha bêbada aqui, uma cantada grosseira acolá, e lá seguem as moças na pregação cívico-priápica. O panfletinho azul nem toca no nome da pílula milagrosa. Nem carece.
Mal as fofoletes adentram o botequim e a nossa mesa, enfeitada por um magote de cabra safado de Pernambuco e do Ceará, ataca de “Capim Novo”, o clássico da disfunção erétil de todos os tempos: “Esse negócio de dizer que droga nova/ muita gente diz que aprova/ mas a prática desmentiu...”
Nossa canção de protesto toma conta do ambiente. Um belo fuzuê. “O doutor disse/ que o problema é psicológico/ não é nada fisiológico/ele até me garantiu...”, emendamos. “Certo mesmo é o ditado do povo/ pra cavalo velho/ o remédio é capim novo”. A música de Luiz Gonzaga e José Clementino toca fogo na noite paulistana, longe, muito longe das fogueiras juninas.
Pianinho, pianinho, como dizia Benito de Paula. Silêncio no ambiente. Aí começa um debate de altíssimo nível. Com participação das gazelas, dos garçons, do tirador de chope... Este mal-diagramado que vos sopra o cangote soltou uma tese na mesa, que teve seus contestadores, mas acabou vingando de alguma forma: pelo direito sagrado à broxada. A demasiadamente humana broxada. Pelo direito de falhar, pelo direito de ouvir um lindo “relaxa, querido, isso acontece...”
Tempos chatos estes da felicidade química a qualquer custo. Como diz uma amiga curitibana, linda afilhada de Balzac, hoje em dia as mulheres não sabem mesmo se são o motivo daquele sexo inspirado ou se tudo não passa de mais um milagre da pílula. Acabou aquele suspense, hitchcockianismo do amor, diante da possibilidade de um retumbante fracasso na cama. Acabou o orgulho da moça em fazer funcionar algo aparentemente leso e morto.
Com as tais das drogas novas, o camarada é capaz de ficar excitado até num velório. Qualquer coisa que se bula é motivo para o assanhamento mais íntimo. Um desassossego dos diabos.
Esse paraíso artificial só faz sentido para os bons velhinhos. As autoridades poderiam até distribuir umas drágeas por ocasião do pagamento das aposentadorias. Seria o fim geral do fastio. Nada de “vovô viu a uva”. Coisa das antigas. “Vovô viu o Viagra”. Esta sim seria a nova aliteração didática das cartilhas infantis.
Escrito por: Xico Sá é autor dos livros “Divina Comédia da Fama” (editora Objetiva) e “Modos de Macho & Modinhas de Fêmea” (editora Record)
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