» Foder não é lá essas coisas
Dia desses, dentro de um cabriolé de luxo que nos levava para um evento do calendário pop da cidade de São Paulo, cutuquei a memória do inimitável homem de qualidades Tom Zé. Queria puxar na caixola por uma velha crônica de sua autoria, no início do Caderno 2 (Estado de SP) que tratava da inusitada reflexão de um mancebo de Irará, Bahia, sobre as primeiras conjunções carnais.
-Rapaz, é Zé Pequeno!
-Como é mesmo a história? Eu sei que o cabra dizia que foder não é lá essas coisas que todo mundo diz, não era?!
Enquanto exercitava a goela, qual um sapo que salta de um poema de Manuel Bandeira ("foi, não foi, foi, não foi''), Tom Zé rebobinava os anais de Irará:
-Isso mesmo. Naquele tempo, todo mundo tecendo loas à primeira vez, às primeiras transas, e aí vem Zé Pequeno, com uma sinceridade danada, e diz que comer moça num é lá essas coisas todas! - narrava o autor de ``Sofro de Juventude'', diante do olhar-retrovisor da bela Neusa, sua companheira, sina e sorte, que viajava uns palmos adiante.
Contra vento e maré, a reflexão do mancebo baiano, pensata correta perante o desacerto das metidas inaugurais do ser, cai como um meteorito de sabedoria sobre estes papiros virtuais.
Quantos de nós, Zé Pequenos de noites de sábado, sofremos diante da obrigatoriedade do sexo. Quantos de nós acusamos a nossa inapetência diante da mulher amada?... O nosso rápido fastio diante do melhor dos mundos?... Talvez uma certa preguiça de prazer e amor. Um Zé Pequeno que irrompe d'alma, onze mil varas depois, para "inguiar'', tal filhote de urubu, ainda no ninho, entre locas de pedras, quando avista gente curiosa.
Mas falamos de uma situação muito passageira, rapidíssima, uma náusea que nem chega a sartreana, uma repulsa que não se filia às doenças de Polansky, um naco de quase nada... Fui! Uma agonia de segundos. O mais, se demora a agonia, meus caros, poderemos dizer que o camarada se "androgenou'', como no decassílabo de hormônios do falecido sambista Agepê ou será Zé Américo? Agora cantando, pra encerrar: “Esse camarada se androgenou/ a moça deu bola a ele/ e ele nem ligou!”.
Escrito por: Xico Sá é autor dos livros “Divina Comédia da Fama” (editora Objetiva) e “Modos de Macho & Modinhas de Fêmea” (editora Record)
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