» Troque o celular por uma galinha gorda
As emoções e o telefone celular. Emoções nada baratas. A cada comemoração, o massacre é maior. Dia das mães, dia dos namorados, dia dos pais, dia de são nunca, dia do amigo, dia do amigo novo... Daqui a pouco irão incentivar a prática de falar muito _e de graça, como se tivesse almoço gratuito na vida!_ até com a sogra, aproveitando o dia delas, a folhinha do 28 de abril.
Na moral da guerra publicitária, o celular resolve os problemas de afetividade e da falta de dengo e cafuné que vivemos agora, quando as pessoas andam mais estúpidas e grossas do que papel de embrulhar prego.
O glorioso inventor da ansiedade, Alexander Graham Bell (1847-1922), deve se arrepender até hoje da sua patente. Como Santos Dumont, dândi brasileiro em Paris, que maldisse do seu próprio brinquedo ao vê-lo nos céus da guerra.
Nestes tempos em que celular virou brinco, eternamente colado às "oiças" de todos, uma reflexão de dona Maria do Socorro, brava sertaneja, mãe deste que vos berra, vem como pílula mais do que apropriada: "Conheci teu pai, namorei, casei, engravidei de todos vocês, criei minha família, cuidei de tudo direitinho, graças a Deus não morreu nenhum... E nunca precisei dar ou receber um telefonema, nem unzinho mesmo!".
Mulher do sertão, que só pegou em um telefone depois dos 50 anos, anda revoltada com parentes e amigas que vivem grudados ao celular: "Tá todo mundo de pescoço torto por aqui, meu filho, cabeça decaída para um lado, tudo penso, por causa dessa moda nova”, diz.
Tudo bem que ela seja do tempo em que se trocava idéias ou confissões numa cadeira de madeira e couro na calçada. O alvo da hipérbole materna, no entanto, é apenas o exagero que se faz do uso do aparelho, verdadeiro brinco falante.
A lamúria da falta do telefonema do dia seguinte, protesto do novo código do bom-tom das moças, também é situação nunca dantes vivida. Se a paranóia já era grande apenas com o telefone fixo, agora com o móvel,a histeria segue os passos da criatura por onde ela for.
Sem a invenção do velho Graham Bell, o dia seguinte nascia sob aurora mais sossegada. Tudo dependia mesmo da dramaturgia do encontro. A onipresença amorosa e/ou comercial instaurada com o celular não era coisa deste mundo. Uma carta, no máximo, poderia ser uma estratégia, garrafa atirada ao mar de tantas Penélopes. Um recado pelo rádio também valia, mas para casos de sumiços amorosos de verdade -cheguei a ser sub-do-sub-redator de programa do gênero, comandado pelo locutor Gevan Siqueira, na rádio Vale do Cariri, em Juazeiro, com recados amorosos e dramas à moda de "Tia Júlia e o Escrevinhador", a bela novela de Vargas Llosa.
Deixemos de ser plantonistas do celular, principalmente no amor. No caso dos pais, por exemplo, o telefonema é um péssimo jeito de dizer eu te amo ou coisa que o valha, como sugere o reclame da TV. O que vale é o dengo da rotina, o cozido dos domingos, a cerveja esclarecedora de broncas e companheirismos tantos.
Quer jogar conversa fora ao celular, faça como a eficiente recomendação das antigas: "Mate uma galinha gorda no domingo e me convide para comer".
Escrito por: Xico Sá é autor dos livros “Divina Comédia da Fama” (editora Objetiva) e “Modos de Macho & Modinhas de Fêmea” (editora Record)
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